Escala de dor em gatos: Feline Grimace Scale × UNESP-Botucatu
Avaliar dor em gato é um exercício de observação contra a natureza do paciente. O gato esconde dor, e a escala certa é a que consegue enxergar o que ele tenta não mostrar. Duas ferramentas validadas são recomendadas pela WSAVA para uso em consultório pelo alto grau de evidência: a Feline Grimace Scale (FGS), baseada na expressão facial, e a escala UNESP-Botucatu em sua versão curta, multidimensional, desenvolvida no Brasil. Elas não competem: cada uma responde melhor a uma situação clínica, e nenhuma das duas serve para dor crônica.
Este texto mostra o que cada escala mede, os pontos de corte da fonte oficial, quando usar uma ou outra e como registrar a evolução de forma comparável.
Por que o gato esconde a dor
As diretrizes de dor da WSAVA (2022) lembram que os gatos, por serem ao mesmo tempo predadores e presas, são hábeis em mascarar a dor. Alguns não demonstram comportamento evidente, especialmente na presença de pessoas, de outros animais ou em ambiente estressante, como a clínica. Na internação, o gato pode ficar quieto e imóvel por medo ou por estar com dor demais para se mexer. Pode também fazer o que a WSAVA chama de "sono fingido", uma postura que quem não conhece o comportamento felino confunde com descanso.
Frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão arterial sofrem influência do estresse e não devem ser usadas sozinhas como indicadores de dor. Por isso as ferramentas atuais se apoiam em comportamento, postura e expressão facial, e é aí que entram as escalas.
Feline Grimace Scale: a dor na expressão facial
A FGS foi desenvolvida e validada na Université de Montréal (Evangelista et al., 2019) e avalia cinco unidades de ação (UA):
- Posição das orelhas
- Contração orbital (aperto das pálpebras)
- Tensão do focinho
- Posição dos bigodes
- Posição da cabeça
Cada unidade recebe 0 (ausente), 1 (moderadamente presente, ou há dúvida) ou 2 (claramente presente). O total vai de 0 a 10, e as diretrizes da WSAVA indicam analgesia de resgate a partir de 4/10. No estudo original, o escore foi expresso como razão: a soma é dividida pelo máximo possível, o que permite excluir uma unidade marcada como impossível de avaliar (no estudo, imagens com mais de duas unidades nessa situação foram descartadas). Nessa forma, o ponto de corte foi acima de 0,39, o que, com as cinco unidades avaliadas, equivale aos 4/10. No mesmo estudo, os gatos com dor foram reavaliados uma hora depois do analgésico, e a escala detectou a queda do escore.
Pontos fortes, segundo a WSAVA: avaliação rápida, sem precisar manipular o gato (útil em pacientes ferais ou que não toleram contato), confiável quando aplicada por veterinários, estudantes, enfermeiros veterinários e também pelos responsáveis, inclusive em gatos submetidos a extração dentária.
Cuidados práticos (site oficial da FGS e diretrizes da WSAVA):
- Não pontue gato dormindo. Espere acordar (site oficial), mas confira se ele dorme de verdade, enrolado e relaxado, e não está em "sono fingido" (WSAVA).
- Não pontue durante higiene, alimentação ou brincadeira. Espere a atividade terminar.
- Diferença de 1 a 2 pontos entre avaliadores é esperada. Isso pesa na hora de escolher quem pontua ao longo do tratamento.
O site oficial tem versão em português, material de treinamento e uma área para praticar a pontuação. As imagens de referência são da Université de Montréal: por isso este texto descreve as unidades e não reproduz as figuras.
UNESP-Botucatu: a escala multidimensional brasileira
A Escala Multidimensional da UNESP-Botucatu para avaliação de dor pós-operatória em gatos (UFEPS), desenvolvida por Brondani, Luna e colaboradores, foi pioneira na literatura científica, segundo o portal Animal Pain, ao apresentar um ponto de corte numérico para intervenção analgésica. Hoje existem duas versões, ambas disponíveis em português no portal Animal Pain.
Versão completa (UFEPS): 10 características distribuídas em três dimensões (alteração psicomotora, expressão da dor e variáveis fisiológicas, estas com pressão arterial e apetite). Cada item vai de 0 a 3, total de 0 a 30, com intervenção analgésica a partir de 8. As subescalas têm ponto de corte próprio (alteração psicomotora a partir de 4/12, expressão da dor a partir de 3/12, as duas somadas a partir de 7), o que permite usar só parte da escala quando o gato não deixa avaliar tudo.
Versão curta (UFEPS-SF): tirou apetite e pressão arterial e combinou itens. Ficaram 4 itens, cada um de 0 a 3: postura; comportamentos específicos (contrair e estender os membros pélvicos ou contrair a musculatura abdominal, olhos semicerrados, lamber ou morder a área afetada, movimentar a cauda fortemente); conforto, atividade e atitude; e reação ao toque seguido de pressão ao redor da área dolorosa. Total de 0 a 12, com resgate a partir de 4. Quando não é possível palpar, exclui-se o item de toque: a escala vai de 0 a 9, com resgate a partir de 3. O portal descreve ainda uma zona de incerteza diagnóstica entre 3 e 5 pontos, faixa em que o julgamento clínico pesa mais, e avisa que olhos semicerrados não devem ser considerados até 1 hora após o fim da anestesia.
A versão curta foi validada em oito idiomas, incluindo o português. Na tabela de ferramentas para dor aguda felina das diretrizes da WSAVA, ela e a FGS são as recomendadas para uso em consultório pelo alto grau de evidência científica. O portal Animal Pain oferece vídeos de cada item e testes de treinamento: o avaliador é considerado apto quando suas notas ficam até 20% acima ou abaixo do gabarito em pelo menos três testes. O próprio portal lembra que, independentemente do escore, cabe ao médico-veterinário decidir a analgesia pela avaliação clínica.
Comparando as ferramentas
| Escala | O que avalia | Faixa | Analgesia de resgate | Precisa tocar? |
|---|---|---|---|---|
| Feline Grimace Scale | 5 unidades de ação faciais | 0 a 10 | ≥4/10 | Não |
| UNESP-Botucatu curta (UFEPS-SF) | Postura, comportamento, atitude, reação ao toque | 0 a 12 | ≥4 (≥3/9 sem palpação) | Sim, quando possível |
| UNESP-Botucatu completa (UFEPS) | 10 itens, inclui pressão arterial e apetite | 0 a 30 | ≥8 | Sim |
| Glasgow CMPS-Feline | 7 itens comportamentais e faciais | 0 a 20 | ≥5/20 | Sim |
| Colorado (CSU) felina | Comportamento e palpação | 0 a 4 | Sem validação demonstrada | Sim |
Sobre a escala de Colorado felina: o documento do Global Pain Council da WSAVA informa que ela passou apenas por teste de confiabilidade, que a validade ainda não foi demonstrada e que outras ferramentas validadas devem ser preferidas. O estudo preliminar de Shipley et al. (2019) encontrou correlação abaixo do recomendado com a CMPS-Feline.
Quando usar cada uma
Dor aguda e pós-operatório na internação. As duas escalas valem, e elas se complementam:
- A FGS serve para checagens rápidas e frequentes, para gatos que não aceitam manipulação e para triar sem estressar o paciente.
- A UNESP-Botucatu curta traz a reação à palpação da área operada, que a expressão facial sozinha não capta. Quando o gato permite interação, ela acrescenta essa informação à avaliação.
A WSAVA recomenda, sempre que possível, avaliar o gato antes da cirurgia para ter uma linha de base, e começar a avaliação pós-operatória quando ele estiver em decúbito esternal e orientado. Sedação e alguns anestésicos interferem no período inicial. As diretrizes destacam que a atitude individual do gato influencia a pontuação, e que acompanhar a mudança em relação à linha de base costuma dizer mais que o número isolado. Gatos não devem ser acordados para a avaliação: repouso e sono numa postura normal, enrolada e relaxada, são bons sinais de conforto.
Dor crônica (osteoartrite e doença articular degenerativa). Aqui nenhuma das duas serve. O site da FGS é taxativo: a escala não deve ser usada para dor crônica, como a osteoartrite. A UNESP-Botucatu foi desenvolvida para dor pós-operatória e é usada em dor aguda. Para dor crônica, a WSAVA e a AAHA apontam instrumentos preenchidos pelo responsável, que convive com o gato e percebe mudanças graduais:
- Feline Musculoskeletal Pain Screening Checklist (MiPSC): 6 itens de sim ou não, para triagem.
- Feline Musculoskeletal Pain Index (FMPI): a versão curta (FMPI-SF) tem 9 atividades do dia a dia avaliadas em escala de "normal" a "de forma alguma". A AAHA o classifica como válido para monitorar dor crônica de osteoartrite.
- Client-Specific Outcome Measures (CSOM): atividades escolhidas caso a caso com o responsável e acompanhadas ao longo do tempo.
A NC State informa que seus questionários de dor crônica não ficam disponíveis para download direto e que o acesso, para uso clínico ou de pesquisa, é solicitado ao laboratório; para o FMPI, o laboratório cita versões em francês e espanhol. Vídeos caseiros do gato andando, pulando, subindo e usando a caixa de areia também são recomendados pela WSAVA. Para o fisiatra, isso tem uma consequência prática: num gato em reabilitação por doença articular, o instrumento de acompanhamento não é a FGS.
Registrar a evolução de forma comparável
Uma escala só vira prova de resultado quando é aplicada sempre da mesma forma:
- Mesma escala e mesma versão do início ao fim. UFEPS-SF (0 a 12) e UFEPS completa (0 a 30) não se comparam. Se o quadro passar de agudo a crônico, comece uma série nova com o instrumento de dor crônica em vez de emendar números.
- Linha de base antes de intervir, como a WSAVA recomenda para o pós-operatório.
- Mesmo avaliador sempre que possível, já que diferenças de 1 a 2 pontos entre avaliadores são esperadas na FGS.
- Mesmas condições: gato acordado e calmo, fora da alimentação e da higiene, e no mesmo momento em relação à medicação.
- Contexto anotado: sedação, resgate analgésico e intercorrências.
No VetMotion, a escala padrão já vem pré-selecionada por espécie: Glasgow CMPS-SF no cão; Feline Grimace Scale no gato, com a UNESP-Botucatu disponível ao lado; escala de expressão facial equina (0 a 12) no cavalo, com a Composite Pain Scale disponível. O app só aceita valores dentro da faixa da escala escolhida e mostra a curva de dor ao longo das sessões. No caso da UNESP-Botucatu, o campo do app corresponde à versão completa (0 a 30): quem usa a versão curta (0 a 12) deve anotar o escore e a versão na observação da sessão, para não misturar as duas faixas na mesma curva. A escolha do instrumento, e a decisão clínica, continuam sendo do médico-veterinário.
Resumo para a rotina
- Gato mascara dor, e parâmetros fisiológicos sozinhos enganam. Use escala validada.
- FGS: 5 unidades de ação, 0–10, resgate a partir de 4/10, sem tocar. Só para dor aguda.
- UNESP-Botucatu curta: 4 itens, 0–12, resgate a partir de 4 (3/9 sem palpação). Completa: 10 itens, 0–30, resgate a partir de 8.
- Colorado felina não tem validade demonstrada (só confiabilidade). Prefira as escalas acima.
- Dor crônica (osteoartrite e doença articular degenerativa): MiPSC para triagem, FMPI ou CSOM para acompanhar.
- Uma escala, uma versão, linha de base e as mesmas condições em todas as avaliações.
Perguntas frequentes
Qual é o ponto de corte da Feline Grimace Scale?
Segundo as diretrizes de dor da WSAVA (2022), gatos com pontuação igual ou maior que 4/10 provavelmente estão com dor e precisam de analgesia de resgate. No estudo de validação, o escore é expresso como razão (soma dividida pelo máximo possível) e o ponto de corte foi acima de 0,39, o que corresponde a 4/10 quando as cinco unidades de ação são avaliadas.
Posso usar a Feline Grimace Scale em gato com artrose?
Não. O site oficial da escala é explícito: a FGS foi desenvolvida e validada para dor aguda e não deve ser usada para dor crônica, como a osteoartrite. Para doença articular degenerativa, use instrumentos de dor crônica preenchidos pelo responsável, como o FMPI.
Qual a diferença entre a UNESP-Botucatu completa e a versão curta?
A completa (UFEPS) tem 10 itens em três dimensões, inclui pressão arterial e apetite, vai de 0 a 30 e indica resgate a partir de 8. A versão curta (UFEPS-SF) tem 4 itens pontuados de 0 a 3, vai de 0 a 12 e indica resgate a partir de 4. As pontuações das duas não são intercambiáveis.
E se o gato não deixa tocar?
A Feline Grimace Scale não exige manipulação e é a opção natural. Na versão curta da UNESP-Botucatu, quando não é possível palpar a área dolorosa, o item de reação ao toque é excluído: a escala passa a ir de 0 a 9, com resgate a partir de 3.
Posso usar a escala de Glasgow do cão em gatos?
Não. A CMPS-SF é canina. Para gatos existe a Glasgow Composite Measure Pain Scale – Feline (CMPS-Feline), com 7 itens, total de 20 e resgate a partir de 5/20, segundo as diretrizes da WSAVA.
O responsável pode usar a Feline Grimace Scale em casa?
A escala se mostrou confiável também quando aplicada pelos responsáveis pelos gatos, segundo a WSAVA, e o site oficial tem conteúdo e aplicativo voltados a eles. Vale orientar o responsável a usá-la como sinal para entrar em contato com a equipe, nunca para medicar o gato por conta própria.
Fontes consultadas
- Feline Grimace Scale — site oficial (Université de Montréal), versão em português
- Feline Grimace Scale — Perguntas frequentes (uso em dor aguda, osteoartrite, gato dormindo)
- Evangelista MC et al. (2019). Facial expressions of pain in cats — the development and validation of a Feline Grimace Scale. Scientific Reports 9, 19128
- Animal Pain (UNESP-Botucatu) — Avaliação da dor em gatos: UFEPS e UFEPS-SF, com vídeos de treinamento
- Animal Pain — Artigos científicos sobre dor em gatos (Brondani et al. 2011, 2012, 2013; Belli et al. 2021; Luna et al. 2022)
- WSAVA — Diretrizes de 2022 para Reconhecimento, Avaliação e Tratamento da Dor (versão em português)
- WSAVA Global Pain Council — Pain scales used for assessment of acute pain in cats
- 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats (Gruen ME et al., JAAHA 58, 55–76)
- NC State University — Clinical Metrology Instruments (FMPI, MiPSC, CSOM)
- Shipley H et al. (2019). Preliminary appraisal of the reliability and validity of the Colorado State University Feline Acute Pain Scale. J Feline Med Surg 21(4), 335–339
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