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Escala de Glasgow em cães: a de dor (CMPS-SF), não a de coma

Cães · 8 min de leitura · Por Equipe VetMotion

Médica-veterinária observando um Golden Retriever caminhar sobre discos de equilíbrio enquanto oferece um petisco
Resumo: Em cães, "escala de Glasgow" pode ser duas coisas diferentes. A Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) é neurológica — avalia atividade motora, reflexos de tronco encefálico e nível de consciência no trauma craniano, de 3 a 18 pontos. A escala de dor é a Glasgow Composite Measure Pain Scale – Short Form (CMPS-SF): 6 categorias comportamentais, de 0 a 24 pontos (0 a 20 quando não dá para avaliar a mobilidade), com analgesia de resgate indicada a partir de 6/24 (ou 5/20). Para acompanhar a dor ao longo do tratamento, use sempre a mesma escala, na mesma versão e nas mesmas condições.

Quem digita "escala de Glasgow cães" encontra dois instrumentos que não têm nada a ver um com o outro. Um é neurológico e serve para estimar prognóstico no trauma craniano. O outro mede dor aguda pelo comportamento e é o que interessa a quem faz analgesia, cirurgia e reabilitação. As duas levam o nome Glasgow, as duas aparecem como "escala de Glasgow" em prontuários e em artigos, e a confusão chega até a pontuação: numa, nota alta é bom sinal; na outra, é sinal de dor.

Este texto separa as duas, detalha a escala de dor (CMPS-SF) com os valores da fonte oficial e mostra como registrar a dor de forma comparável ao longo do tratamento.

Duas escalas com o mesmo nome

A Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) é uma adaptação veterinária da escala de coma de Glasgow usada em humanos. Platt e colaboradores (2001) avaliaram seu valor prognóstico em 38 cães com trauma craniano. A escala soma três componentes da função neurológica — atividade motora, reflexos de tronco encefálico e nível de consciência —, cada um pontuado de 1 a 6, num total de 3 a 18, em que pontuação mais baixa indica maior alteração (Ash et al., 2018). No estudo de Platt, um escore de 8 correspondia a 50% de probabilidade de sobrevivência nas primeiras 48 horas.

A Glasgow Composite Measure Pain Scale – Short Form (CMPS-SF) foi desenvolvida na Universidade de Glasgow como versão curta da escala composta de dor aguda canina (Holton et al., 2001; Reid et al., 2007). Ela mede dor aguda a partir do comportamento e vai de 0 a 24: quanto maior, mais dor.

MGCS (coma)CMPS-SF (dor)
O que medeFunção neurológica no trauma cranianoDor aguda, pelo comportamento
ComponentesAtividade motora, reflexos de tronco, nível de consciência6 categorias comportamentais
Faixa3 a 180 a 24 (0 a 20 sem mobilidade)
LeituraMenor = piorMaior = mais dor
Uso típicoEmergência, neurologia, triagem de traumaPós-operatório, trauma, dor clínica aguda

Se o prontuário diz apenas "Glasgow 12", não há como saber se o cão está em estado neurológico grave ou com dor importante. Por isso vale escrever sempre a sigla completa.

O que a CMPS-SF avalia

Segundo o guia de uso da ficha oficial, a CMPS-SF tem 30 descritores distribuídos em 6 categorias comportamentais, incluindo mobilidade. Em cada categoria, os descritores estão ordenados pela gravidade da dor, e o avaliador escolhe o que melhor descreve o cão naquele momento. A ficha segue uma ordem fixa de abordagem:

A ficha determina que a seção B não seja aplicada em fraturas de coluna, de pelve ou de múltiplos membros, ou quando o cão precisa de ajuda para se locomover. Na reabilitação, isso inclui boa parte dos pacientes neurológicos e dos pós-operatórios ortopédicos imediatos.

O guia é explícito sobre seguir o protocolo à risca. A ficha é © University of Glasgow, licenciada à NewMetrica, e liberada apenas para uso pessoal e educacional. Por isso, este texto não reproduz os descritores: baixe a ficha oficial (link nas fontes). Quem quiser a versão em português pode usar a do portal Animal Pain, da UNESP-Botucatu, que tem vídeos de treinamento item a item.

Pontuação e ponto de intervenção analgésica

O escore é a soma das seis categorias. O máximo é 24, ou 20 quando a mobilidade não pode ser avaliada. A recomendação original de intervenção analgésica é 6/24 ou 5/20, valor que consta da ficha oficial e das diretrizes de dor da WSAVA (2022), e que foi derivado por Reid et al. (2007).

Dois pontos merecem atenção:

  1. Versão em português. A validação brasileira segundo COSMIN e GRADE (Lima et al., 2024, com 52 cães avaliados em vídeo por quatro avaliadores) encontrou ponto de corte para resgate de ≥5, ou ≥4 excluindo o item de mobilidade, com classificação GRADE alta. Se a equipe usa a versão traduzida, vale saber de qual ponto de corte está partindo e escrevê-lo no protocolo do serviço.
  2. Não modifique a escala. A revisão de escopo de Testa et al. (2021) encontrou que cerca de um terço dos estudos alterou o nível de intervenção, e lembra que mudanças sem nova validação alteram as propriedades de medida do instrumento. Pular itens fora da regra da seção B, "arredondar" descritores ou mudar o ponto de corte invalida a comparação.

A WSAVA também lembra que a CMPS-SF é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, usada junto com o exame, e que a sedação confunde: cães profundamente sedados tendem a pontuar alto, com ou sem dor. O inverso também vale: um escore abaixo do ponto de corte não descarta dor quando o quadro clínico aponta o contrário. O número orienta, a decisão de dar ou não o analgésico continua sendo do médico-veterinário.

E a escala de Colorado?

A Colorado State University Canine Acute Pain Scale (Hellyer, Uhrig e Robinson, 2006) é uma escala de 0 a 4 que combina comportamento, resposta à palpação e tensão corporal, com um desenho do corpo para marcar regiões dolorosas, quentes ou tensas. Na ficha, a indicação "reavaliar o plano analgésico" aparece a partir do escore 2, e o animal que dorme não é pontuado: reavalia-se quando acordar.

É rápida e intuitiva, mas a tabela de instrumentos das diretrizes da AAHA (2022) a classifica como não validada, enquanto a CMPS-SF aparece como moderadamente validada. Na prática, a Colorado pode servir como triagem rápida. Para documentar resposta a tratamento, a CMPS-SF tem mais respaldo. E as duas não devem se alternar no mesmo paciente.

Quando reavaliar

Para dor aguda, as fontes se complementam, com uma diferença que vale conhecer:

Na reabilitação, a pergunta muda: o paciente já saiu da fase aguda e a dor passa a ser acompanhada sessão a sessão. A CMPS-SF foi desenvolvida para dor aguda. Para dor crônica associada à osteoartrite, a WSAVA e a AAHA recomendam instrumentos preenchidos pelo responsável, como o Canine Brief Pain Inventory (CBPI) e o Liverpool Osteoarthritis in Dogs (LOAD). Um plano coerente costuma usar a CMPS-SF no pós-operatório e na dor aguda, e um instrumento de dor crônica para o acompanhamento de longo prazo, cada um na sua série.

Uma escala só, do começo ao fim do tratamento

Escalas de dor não são intercambiáveis: um 4 na Colorado, um 4/10 numa escala numérica e um 4/24 na CMPS-SF não dizem a mesma coisa. A AAHA (2022) destaca que o uso de uma escala padronizada permite monitorar o paciente de forma consistente e acompanhar a resposta às intervenções analgésicas. Para que a curva de dor signifique alguma coisa:

No VetMotion, a escala padrão já vem pré-selecionada por espécie (CMPS-SF no cão), o app só aceita valores dentro da faixa da escala escolhida e a evolução aparece em gráfico ao longo das sessões. Isso ajuda a manter a mesma escala do primeiro ao último registro. A CMPS-SF é registrada na faixa de 0 a 24: quando a mobilidade não puder ser avaliada e o escore for sobre 20, anote isso na observação da sessão, para que o ponto não seja lido como /24. A decisão clínica continua sendo do médico-veterinário.

Resumo para a rotina

Perguntas frequentes

A escala de Glasgow de coma e a escala de Glasgow de dor são a mesma coisa?

Não. A Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) é um escore neurológico usado no trauma craniano, com três categorias (atividade motora, reflexos de tronco encefálico e nível de consciência) pontuadas de 1 a 6, total de 3 a 18, e quanto menor, pior. A Glasgow Composite Measure Pain Scale – Short Form (CMPS-SF) mede dor aguda pelo comportamento, de 0 a 24, e quanto maior, mais dor.

Qual é o ponto de corte da CMPS-SF para analgesia de resgate?

Na versão original em inglês, a intervenção analgésica é recomendada a partir de 6/24, ou 5/20 quando a mobilidade não pode ser avaliada. A validação da versão em português (Lima et al., 2024) encontrou ponto de corte de 5, ou 4 sem o item de mobilidade. Em qualquer caso, a escala apoia a decisão clínica, não a substitui.

Posso usar a CMPS-SF em gatos?

Não. A CMPS-SF foi desenvolvida e validada para cães. Para gatos existem instrumentos próprios, como a Glasgow Composite Measure Pain Scale – Feline (CMPS-Feline, 0 a 20, resgate a partir de 5/20), a Feline Grimace Scale e a escala UNESP-Botucatu.

A CMPS-SF serve para acompanhar dor crônica, como a osteoartrite?

Ela foi desenvolvida para dor aguda. Para dor crônica associada à osteoartrite em cães, as diretrizes da WSAVA (2022) e da AAHA (2022) recomendam questionários preenchidos pelo responsável, como o Canine Brief Pain Inventory (CBPI) e o Liverpool Osteoarthritis in Dogs (LOAD).

Como pontuar a CMPS-SF em um cão que não anda?

A própria ficha orienta não aplicar a seção de mobilidade em fraturas de coluna, de pelve ou de múltiplos membros, ou quando o cão precisa de ajuda para se locomover. Nesse caso, o total máximo passa a 20 e o ponto de intervenção, a 5/20. Registre sempre o denominador para não comparar /20 com /24.

Quanto tempo depois da cirurgia posso aplicar a CMPS-SF?

A WSAVA (2022) diz que a dor pode ser avaliada desde 30 minutos após a extubação. Para a CMPS-SF em si, a autora da escala orienta aplicá-la só quando o cão está totalmente consciente e anda sem ajuda (salvo quando a mobilidade é contraindicada), o que costuma levar cerca de 2 horas após a extubação. Antes disso, a sedação pode elevar o escore sem que haja dor.

A escala de Colorado pode substituir a de Glasgow?

A Colorado State University Canine Acute Pain Scale é rápida (0 a 4) e útil como triagem, mas as diretrizes da AAHA (2022) a classificam como não validada, enquanto a CMPS-SF aparece como moderadamente validada. Se a Colorado for usada, ela não deve se alternar com a CMPS-SF no mesmo paciente, porque as pontuações não são equivalentes.

Fontes consultadas

  1. University of Glasgow / NewMetrica — Short Form of the Glasgow Composite Measure Pain Scale (ficha oficial e guia de uso, cópia hospedada pela WSAVA)
  2. Holton L, Reid J, Scott EM, Pawson P, Nolan A (2001). Development of a behaviour-based scale to measure acute pain in dogs. Veterinary Record 148, 525–531
  3. Reid J, Nolan AM, Hughes JML, Lascelles D, Pawson P, Scott EM (2007). Development of the short-form Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS-SF) and derivation of an analgesic intervention score. Animal Welfare 16, 97–104 (registro da Universidade de Glasgow)
  4. Reid J. Pain assessment in the dog — the Glasgow Pain Scale (Royal Canin Academy)
  5. Testa B et al. (2021). The Short Form of the Glasgow Composite Measure Pain Scale in Post-operative Analgesia Studies in Dogs — A Scoping Review. Frontiers in Veterinary Science 8, 751949
  6. Lima MT et al. (2024). Validation of the Portuguese Version of the Short-Form Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS-SF) According to COSMIN and GRADE Guidelines. Animals 14(6), 831
  7. Platt SR, Radaelli ST, McDonnell JJ (2001). The Prognostic Value of the Modified Glasgow Coma Scale in Head Trauma in Dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine 15(6), 581–584
  8. Ash K et al. (2018). Performance evaluation and validation of the animal trauma triage (ATT) score and modified Glasgow coma scale (mGCS) in dogs — a VetCOT Registry study. J Vet Emerg Crit Care 28(3), 192–200
  9. WSAVA — Diretrizes de 2022 para Reconhecimento, Avaliação e Tratamento da Dor (versão em português)
  10. 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats (Gruen ME et al., JAAHA 58, 55–76)
  11. Colorado State University Veterinary Medical Center — Canine Acute Pain Scale (Hellyer, Uhrig, Robinson, 2006; cópia hospedada pela University of Florida)
  12. Animal Pain (UNESP-Botucatu) — Avaliação da dor em cães: CMPS-SF em português, com vídeos de treinamento, e CBPI

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