Escala de Glasgow em cães: a de dor (CMPS-SF), não a de coma
Quem digita "escala de Glasgow cães" encontra dois instrumentos que não têm nada a ver um com o outro. Um é neurológico e serve para estimar prognóstico no trauma craniano. O outro mede dor aguda pelo comportamento e é o que interessa a quem faz analgesia, cirurgia e reabilitação. As duas levam o nome Glasgow, as duas aparecem como "escala de Glasgow" em prontuários e em artigos, e a confusão chega até a pontuação: numa, nota alta é bom sinal; na outra, é sinal de dor.
Este texto separa as duas, detalha a escala de dor (CMPS-SF) com os valores da fonte oficial e mostra como registrar a dor de forma comparável ao longo do tratamento.
Duas escalas com o mesmo nome
A Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) é uma adaptação veterinária da escala de coma de Glasgow usada em humanos. Platt e colaboradores (2001) avaliaram seu valor prognóstico em 38 cães com trauma craniano. A escala soma três componentes da função neurológica — atividade motora, reflexos de tronco encefálico e nível de consciência —, cada um pontuado de 1 a 6, num total de 3 a 18, em que pontuação mais baixa indica maior alteração (Ash et al., 2018). No estudo de Platt, um escore de 8 correspondia a 50% de probabilidade de sobrevivência nas primeiras 48 horas.
A Glasgow Composite Measure Pain Scale – Short Form (CMPS-SF) foi desenvolvida na Universidade de Glasgow como versão curta da escala composta de dor aguda canina (Holton et al., 2001; Reid et al., 2007). Ela mede dor aguda a partir do comportamento e vai de 0 a 24: quanto maior, mais dor.
| MGCS (coma) | CMPS-SF (dor) | |
|---|---|---|
| O que mede | Função neurológica no trauma craniano | Dor aguda, pelo comportamento |
| Componentes | Atividade motora, reflexos de tronco, nível de consciência | 6 categorias comportamentais |
| Faixa | 3 a 18 | 0 a 24 (0 a 20 sem mobilidade) |
| Leitura | Menor = pior | Maior = mais dor |
| Uso típico | Emergência, neurologia, triagem de trauma | Pós-operatório, trauma, dor clínica aguda |
Se o prontuário diz apenas "Glasgow 12", não há como saber se o cão está em estado neurológico grave ou com dor importante. Por isso vale escrever sempre a sigla completa.
O que a CMPS-SF avalia
Segundo o guia de uso da ficha oficial, a CMPS-SF tem 30 descritores distribuídos em 6 categorias comportamentais, incluindo mobilidade. Em cada categoria, os descritores estão ordenados pela gravidade da dor, e o avaliador escolhe o que melhor descreve o cão naquele momento. A ficha segue uma ordem fixa de abordagem:
- A. Observação no canil, sem tocar: vocalização (0 a 3) e atenção à ferida ou à área dolorosa (0 a 4).
- B. Com guia, fora do canil: mobilidade ao levantar e caminhar (0 a 4).
- C. Pressão suave a cerca de 5 cm (2 polegadas) ao redor da ferida ou da área dolorosa, incluindo abdome: resposta ao toque (0 a 5).
- D. Avaliação geral: comportamento geral (0 a 4) e conforto/postura (0 a 4).
A ficha determina que a seção B não seja aplicada em fraturas de coluna, de pelve ou de múltiplos membros, ou quando o cão precisa de ajuda para se locomover. Na reabilitação, isso inclui boa parte dos pacientes neurológicos e dos pós-operatórios ortopédicos imediatos.
O guia é explícito sobre seguir o protocolo à risca. A ficha é © University of Glasgow, licenciada à NewMetrica, e liberada apenas para uso pessoal e educacional. Por isso, este texto não reproduz os descritores: baixe a ficha oficial (link nas fontes). Quem quiser a versão em português pode usar a do portal Animal Pain, da UNESP-Botucatu, que tem vídeos de treinamento item a item.
Pontuação e ponto de intervenção analgésica
O escore é a soma das seis categorias. O máximo é 24, ou 20 quando a mobilidade não pode ser avaliada. A recomendação original de intervenção analgésica é 6/24 ou 5/20, valor que consta da ficha oficial e das diretrizes de dor da WSAVA (2022), e que foi derivado por Reid et al. (2007).
Dois pontos merecem atenção:
- Versão em português. A validação brasileira segundo COSMIN e GRADE (Lima et al., 2024, com 52 cães avaliados em vídeo por quatro avaliadores) encontrou ponto de corte para resgate de ≥5, ou ≥4 excluindo o item de mobilidade, com classificação GRADE alta. Se a equipe usa a versão traduzida, vale saber de qual ponto de corte está partindo e escrevê-lo no protocolo do serviço.
- Não modifique a escala. A revisão de escopo de Testa et al. (2021) encontrou que cerca de um terço dos estudos alterou o nível de intervenção, e lembra que mudanças sem nova validação alteram as propriedades de medida do instrumento. Pular itens fora da regra da seção B, "arredondar" descritores ou mudar o ponto de corte invalida a comparação.
A WSAVA também lembra que a CMPS-SF é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, usada junto com o exame, e que a sedação confunde: cães profundamente sedados tendem a pontuar alto, com ou sem dor. O inverso também vale: um escore abaixo do ponto de corte não descarta dor quando o quadro clínico aponta o contrário. O número orienta, a decisão de dar ou não o analgésico continua sendo do médico-veterinário.
E a escala de Colorado?
A Colorado State University Canine Acute Pain Scale (Hellyer, Uhrig e Robinson, 2006) é uma escala de 0 a 4 que combina comportamento, resposta à palpação e tensão corporal, com um desenho do corpo para marcar regiões dolorosas, quentes ou tensas. Na ficha, a indicação "reavaliar o plano analgésico" aparece a partir do escore 2, e o animal que dorme não é pontuado: reavalia-se quando acordar.
É rápida e intuitiva, mas a tabela de instrumentos das diretrizes da AAHA (2022) a classifica como não validada, enquanto a CMPS-SF aparece como moderadamente validada. Na prática, a Colorado pode servir como triagem rápida. Para documentar resposta a tratamento, a CMPS-SF tem mais respaldo. E as duas não devem se alternar no mesmo paciente.
Quando reavaliar
Para dor aguda, as fontes se complementam, com uma diferença que vale conhecer:
- A WSAVA (2022) orienta que a dor pode ser avaliada a partir de 30 minutos após a extubação. O cão deve ser reavaliado continuamente até o tratamento se mostrar eficaz e, depois, a cada 2 a 4 horas, conforme a duração de ação dos analgésicos e o tipo e a intensidade da dor.
- Para a CMPS-SF especificamente, Jacqueline Reid, uma das autoras da escala, orienta aplicá-la só quando o cão está totalmente consciente e anda sem ajuda (salvo quando a mobilidade é contraindicada), o que costuma levar cerca de 2 horas após a extubação, avaliando cada caso. Antes disso, o efeito residual de sedativos e anestésicos pode distorcer o escore, e a avaliação da dor segue pelo exame clínico.
- No pós-operatório inicial, a mesma autora recomenda não pontuar com frequência maior que de hora em hora: a palpação ao redor da ferida e a avaliação da mobilidade estressam o animal e interferem nas medidas seguintes.
- Depois de um resgate analgésico, reavalie em cerca de 1 hora; se o escore ficou abaixo do ponto de intervenção, reavalie em 2 horas. A partir daí, a cada 3 a 4 horas (ou antes, conforme o procedimento e o analgésico usado) e após cada dose de analgésico (Reid, Royal Canin Academy).
- Um cão dormindo de forma claramente confortável não deve ser acordado para ser avaliado (WSAVA, Quadro 1).
Na reabilitação, a pergunta muda: o paciente já saiu da fase aguda e a dor passa a ser acompanhada sessão a sessão. A CMPS-SF foi desenvolvida para dor aguda. Para dor crônica associada à osteoartrite, a WSAVA e a AAHA recomendam instrumentos preenchidos pelo responsável, como o Canine Brief Pain Inventory (CBPI) e o Liverpool Osteoarthritis in Dogs (LOAD). Um plano coerente costuma usar a CMPS-SF no pós-operatório e na dor aguda, e um instrumento de dor crônica para o acompanhamento de longo prazo, cada um na sua série.
Uma escala só, do começo ao fim do tratamento
Escalas de dor não são intercambiáveis: um 4 na Colorado, um 4/10 numa escala numérica e um 4/24 na CMPS-SF não dizem a mesma coisa. A AAHA (2022) destaca que o uso de uma escala padronizada permite monitorar o paciente de forma consistente e acompanhar a resposta às intervenções analgésicas. Para que a curva de dor signifique alguma coisa:
- Escolha a escala na primeira avaliação e mantenha. Se for preciso trocar (por exemplo, da CMPS-SF para o CBPI quando o quadro se torna crônico), comece uma série nova em vez de emendar os números.
- Registre o denominador. Um cão que passou a andar sai de /20 para /24. Anote qual versão foi usada em cada registro.
- Padronize as condições: mesmo momento em relação à dose do analgésico e à sessão (antes dos exercícios, por exemplo), mesmo ambiente e, sempre que possível, o mesmo avaliador.
- Registre também o contexto: sedação, medicação de resgate, intercorrências. Um número sem contexto engana.
No VetMotion, a escala padrão já vem pré-selecionada por espécie (CMPS-SF no cão), o app só aceita valores dentro da faixa da escala escolhida e a evolução aparece em gráfico ao longo das sessões. Isso ajuda a manter a mesma escala do primeiro ao último registro. A CMPS-SF é registrada na faixa de 0 a 24: quando a mobilidade não puder ser avaliada e o escore for sobre 20, anote isso na observação da sessão, para que o ponto não seja lido como /24. A decisão clínica continua sendo do médico-veterinário.
Resumo para a rotina
- "Glasgow" sem complemento é ambíguo: MGCS (coma, 3–18, menor = pior) não é CMPS-SF (dor, 0–24, maior = mais dor).
- CMPS-SF: 6 categorias, 30 descritores, total 0–24 (0–20 sem mobilidade), intervenção a partir de 6/24 ou 5/20 na versão original. Na versão validada em português, ≥5 (ou ≥4 sem mobilidade).
- Siga a ordem da ficha, não modifique itens nem ponto de corte, e considere o efeito da sedação: a CMPS-SF entra quando o cão está consciente e anda sem ajuda, não mais que de hora em hora no início, e cerca de 1 hora depois de cada resgate.
- Colorado é rápida, mas não validada segundo a AAHA. Não alterne com a CMPS-SF.
- Para dor crônica (osteoartrite), use CBPI ou LOAD, numa série própria.
- Uma escala, uma versão, as mesmas condições e o denominador sempre anotado.
Perguntas frequentes
A escala de Glasgow de coma e a escala de Glasgow de dor são a mesma coisa?
Não. A Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) é um escore neurológico usado no trauma craniano, com três categorias (atividade motora, reflexos de tronco encefálico e nível de consciência) pontuadas de 1 a 6, total de 3 a 18, e quanto menor, pior. A Glasgow Composite Measure Pain Scale – Short Form (CMPS-SF) mede dor aguda pelo comportamento, de 0 a 24, e quanto maior, mais dor.
Qual é o ponto de corte da CMPS-SF para analgesia de resgate?
Na versão original em inglês, a intervenção analgésica é recomendada a partir de 6/24, ou 5/20 quando a mobilidade não pode ser avaliada. A validação da versão em português (Lima et al., 2024) encontrou ponto de corte de 5, ou 4 sem o item de mobilidade. Em qualquer caso, a escala apoia a decisão clínica, não a substitui.
Posso usar a CMPS-SF em gatos?
Não. A CMPS-SF foi desenvolvida e validada para cães. Para gatos existem instrumentos próprios, como a Glasgow Composite Measure Pain Scale – Feline (CMPS-Feline, 0 a 20, resgate a partir de 5/20), a Feline Grimace Scale e a escala UNESP-Botucatu.
A CMPS-SF serve para acompanhar dor crônica, como a osteoartrite?
Ela foi desenvolvida para dor aguda. Para dor crônica associada à osteoartrite em cães, as diretrizes da WSAVA (2022) e da AAHA (2022) recomendam questionários preenchidos pelo responsável, como o Canine Brief Pain Inventory (CBPI) e o Liverpool Osteoarthritis in Dogs (LOAD).
Como pontuar a CMPS-SF em um cão que não anda?
A própria ficha orienta não aplicar a seção de mobilidade em fraturas de coluna, de pelve ou de múltiplos membros, ou quando o cão precisa de ajuda para se locomover. Nesse caso, o total máximo passa a 20 e o ponto de intervenção, a 5/20. Registre sempre o denominador para não comparar /20 com /24.
Quanto tempo depois da cirurgia posso aplicar a CMPS-SF?
A WSAVA (2022) diz que a dor pode ser avaliada desde 30 minutos após a extubação. Para a CMPS-SF em si, a autora da escala orienta aplicá-la só quando o cão está totalmente consciente e anda sem ajuda (salvo quando a mobilidade é contraindicada), o que costuma levar cerca de 2 horas após a extubação. Antes disso, a sedação pode elevar o escore sem que haja dor.
A escala de Colorado pode substituir a de Glasgow?
A Colorado State University Canine Acute Pain Scale é rápida (0 a 4) e útil como triagem, mas as diretrizes da AAHA (2022) a classificam como não validada, enquanto a CMPS-SF aparece como moderadamente validada. Se a Colorado for usada, ela não deve se alternar com a CMPS-SF no mesmo paciente, porque as pontuações não são equivalentes.
Fontes consultadas
- University of Glasgow / NewMetrica — Short Form of the Glasgow Composite Measure Pain Scale (ficha oficial e guia de uso, cópia hospedada pela WSAVA)
- Holton L, Reid J, Scott EM, Pawson P, Nolan A (2001). Development of a behaviour-based scale to measure acute pain in dogs. Veterinary Record 148, 525–531
- Reid J, Nolan AM, Hughes JML, Lascelles D, Pawson P, Scott EM (2007). Development of the short-form Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS-SF) and derivation of an analgesic intervention score. Animal Welfare 16, 97–104 (registro da Universidade de Glasgow)
- Reid J. Pain assessment in the dog — the Glasgow Pain Scale (Royal Canin Academy)
- Testa B et al. (2021). The Short Form of the Glasgow Composite Measure Pain Scale in Post-operative Analgesia Studies in Dogs — A Scoping Review. Frontiers in Veterinary Science 8, 751949
- Lima MT et al. (2024). Validation of the Portuguese Version of the Short-Form Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS-SF) According to COSMIN and GRADE Guidelines. Animals 14(6), 831
- Platt SR, Radaelli ST, McDonnell JJ (2001). The Prognostic Value of the Modified Glasgow Coma Scale in Head Trauma in Dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine 15(6), 581–584
- Ash K et al. (2018). Performance evaluation and validation of the animal trauma triage (ATT) score and modified Glasgow coma scale (mGCS) in dogs — a VetCOT Registry study. J Vet Emerg Crit Care 28(3), 192–200
- WSAVA — Diretrizes de 2022 para Reconhecimento, Avaliação e Tratamento da Dor (versão em português)
- 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats (Gruen ME et al., JAAHA 58, 55–76)
- Colorado State University Veterinary Medical Center — Canine Acute Pain Scale (Hellyer, Uhrig, Robinson, 2006; cópia hospedada pela University of Florida)
- Animal Pain (UNESP-Botucatu) — Avaliação da dor em cães: CMPS-SF em português, com vídeos de treinamento, e CBPI
Prove o resultado do seu tratamento — em números
O VetMotion transforma cada sessão em prova: dor em escala validada, amplitude em graus, gráficos que o responsável entende. E a I.A. faz o trabalho chato.
Testar 14 dias, sem cartão